Pinturas de Bob Dylan em Londres


por Vanda Marques
03.02 2010


A galeria de arte londrina, Halcyon, acolhe a exposição de Bob Dylan. São mais de 100 obras do músico de 68 anos

"Desenho apenas o que me interessa e depois pinto os desenhos. Casas, campos cultivados, troncos de árvores, pode ser qualquer coisa. Posso pegar numa taça de fruta e transformá-la num drama de vida ou morte. As mulhers são figuras poderosas, por isso pinto-as dessa forma. Posso pintar pessoas em casas comunitárias ou burgueses", explicou Bob Dylan.

As obras do músico vão estar expostas na galeria Halcyon, em Londres. A exposição é baseada nos desenhos "Drawn Blank Series", dos anos 90. São mais de 100 obras, 30 delas vão ser apresentadas pela primeira vez na exposição que começa no dia 13 de Fevereiro.
http://www.ionline.pt

Carmen Herrera

A grande revelação da pintura tem 94 anos
07.01 2010

Pinta há 60 anos e vendeu o primeiro quadro em 2004. Agora é a "descoberta da década" e cobra 30 mil euros por obra

Sentada na cadeira de rodas, debaixo de uma clarabóia do seu loft (sotão) perto de Union Square, em Manhattan, a pintora abstracta Carmen Herrera, de 94 anos, segura uma taça de champanhe. Após 60 anos de pintura muito privada, Herrera vendeu a primeira obra de arte em 2004, com 89 anos. Hoje, numa pequena cerimónia em sua honra, rejubila ao perceber que a sua carreira está por fim, e indiscutivelmente, lançada. Sob as luzes dos flashes, estende as mãos para receber um prémio de carreira entregue pelo director do Centro de Arte Walker, em Minneapolis.

O amigo e pintor Tony Bechara ergue o copo. "Em Porto Rico temos um ditado", declara. "O autocarro [guagua] chega sempre para quem fica à espera."

Herrera, nascida em Cuba, ri-se e responde: "Bem, Tony, estive à espera na paragem durante 94 anos!"

Desde a primeira venda, há cinco anos, os coleccionadores têm perseguido avidamente Herrera. As suas pinturas radiantemente ascéticas passaram a fazer parte de colecções permanentes de instituições como o Museu de Arte Moderna (MoMA), o Museu Hirshhorn e a Galeria Tate Modern. No ano passado, o MoMA incluiu-a numa exposição de artistas latino-americanos. Este Verão, durante uma mostra retrospectiva em Inglaterra, o jornal inglês "The Observer" considerou Herrera a descoberta da década, perguntando: "Como pudemos passar ao lado destas belíssimas composições?"

Numa época em que o mundo artístico idolatra, e muitas vezes recompensa generosamente, jovens e principiantes, Herrera, uma pintora nonagenária com artrite e confinada à sua casa, encarna um tipo de sucesso diferente e raro: o da artista ignorada pelo mercado e pela história que persistiu por não ter alternativa.

"Faço-o porque tenho de o fazer; é uma compulsão que também me dá prazer", diz. "Nunca na vida pensei em dinheiro e achava que a fama era algo muito vulgar. Por isso, trabalhei e esperei. E no fim da vida, para meu espanto e alegria, estou a ter imenso reconhecimento."

Obra
Julian Zugazagoitia, director de El Museo del Barrio, em East Harlem, chamou a Herrera "uma sossegada guerreira da sua arte". "Atingir a glória aos 94 anos - independentemente do que a ascensão lenta de Carmen Herrera possa transmitir sobre as dificuldades de ser uma artista mulher, uma artista imigrante ou uma artista à frente do seu tempo - é claramente uma história de força pessoal", afirma Zugazagoitia.

Uma minimalista cujas telas são destilações geométricas de forma e cor, Herrera tem atraído a atenção dos historiadores de arte ao longo da última década. Agora, cada vez mais é considerada uma figura importante por aqueles que estudam as suas "pinturas icónicas, notavelmente monumentais", diz Edward J. Sullivan, professor de História de Arte da Universidade de Nova Iorque.

Herrera, que desde o final da década de 30 pinta em relativa solidão, tendo exposto apenas ocasionalmente, contou com o apoio inabalável do marido Jesse Loewenthal, de 61 anos. Loewenthal, professor de inglês do Liceu Stuyvesant em Manhattan, foi retratado pelo seu colega memorista Frank McCourt como um intelectual do Velho Mundo num "elegante terno de três peças, com a corrente de ouro do relógio atravessada diante do seu colete".

O reconhecimento de Herrera aconteceu alguns anos depois da morte do marido, com 98 anos, em 2000. "Toda a gente diz que Jesse deve ter orquestrado isto lá de cima", diz Herrera, sacudindo a cabeça. "Sim, claro, Jesse numa nuvem." E acrescenta: "Trabalhei arduamente. Se calhar fui eu."

Nas entrevistas no seu apartamento mobilado de forma parca mas artística, Herrera ofereceu sempre um cocktail - "Oh, por favor não sejam moderados!" - e uma série de histórias sobre a Cuba pré-revolucionária, Paris do pós-guerra e os muitos artistas que conheceu, desde Wifredo Lam a Yves Klein ou Barnett Newman.

"Ah, Wifredo!", exclama, referindo-se a Lam, o pintor francês de origem cubana. "As raparigas eram loucas por ele. Quando estávamos em Havana, telefonavam-me constantemente: 'O Wifredo está por cá?' Santa paciência, não era a secretária dele."

Mas Herrera é menos expansiva quando fala da sua arte e discute-a com um minimalismo que evoca a sua obra. "As pinturas falam por elas", diz.

À pergunta "como descreveria a um aluno uma pintura como 'Blanco y Verde?'" (66) - uma tela branca interrompida por um triângulo invertido verde -, responde: "Eu nunca teria um aluno." Então, a uma criança dócil e curiosa? "Dava-lhe um doce para ela ficar com os dente podres."

Vida
Nascida em 1915, em Havana, onde o seu pai foi o editor fundador do diário "El Mundo" e a sua mãe repórter, Herrera teve aulas de arte em criança, frequentou uma escola feminina direccionada para as artes e actividades sociais em Paris e iniciou o curso de Arquitectura numa universidade cubana. Em 39, a meio dos estudos, casou-se com Loewenthal e mudou-se para Nova Iorque (não tiveram filhos).

Embora tenha estudado na Art Students League de Nova Iorque, Herrera só descobriu a sua identidade artística quando se estabeleceu com o marido alguns anos em Paris, após a Segunda Guerra Mundial. Aí, juntou-se a um grupo de artistas abstractos com base no influente Salon des Réalités Nouvelles, onde expôs o seu trabalho ao lado de Josef Albers, Jean Arp, Sonia Delaunay e outros.

"Andava à procura de um vocabulário pictórico e foi lá que o encontrei", conta. "Mas quando regressámos a Nova Iorque, este tipo de arte não era aceite. O que estava na moda era o expressionismo abstracto. Não conseguia arranjar uma galeria."

Herrera conta que também se resignou aos obstáculos encontrados enquanto artista feminina hispânica, "como se se tratasse de um handicap". Além disso, "naquela altura, a sua arte não era facilmente digerível", afirma Zugazagoitia. "Não pintava paisagens cubanas nem flores tropicais, a arte que talvez se esperasse de uma emigrante cubana que tinha vivido em Paris. Ela estava à frente do seu tempo."

Durante décadas, Herrera fez algumas mostras individuais aqui e ali, incluindo em museus (Museu Alternativo em 84, El Museo del Barrio em 98). Mas nunca vendeu nada e nunca precisou (nem desejou fortemente) da afirmação do mercado. "Teria sido agradável, mas talvez prejudicial", afirma.

Bechara, que se tornou seu amigo no início dos anos 70 e agora é presidente do El Museo del Barrio, tentou trazê-la a público várias vezes, ainda que ela "encontrasse uma espécie de alívio em estar só".

Um dia, em 2004, Bechara jantou com Frederico Seve, proprietário da galeria Latin Collector em Manhattan, que procurava solução para a desistência de uma artista de uma mostra de pintoras geométricas muito publicitada. Seve recorda que Tony lhe disse: "Geometria e mulheres? Precisas de Cármen Herrera." "E eu perguntei: 'Mas quem é Carmen Herrera?'"

Na manhã seguinte, Seve chegou à galeria e encontrou várias pinturas acabadas de entregar, que pensou serem da conhecida artista brasileira Lygia Clark, mas que na verdade eram de Carmen Herrera. Virando as telas, percebeu que eram dez anos anteriores às pinturas de Clark, de estilo semelhante. "Uau!", lembra-se de exclamar. "Temos aqui uma pioneira."

Seve ligou rapidamente a Ella Fontanals-Cisneros, uma coleccionista que tem uma fundação de arte em Miami. Ella comprou cinco pinturas de Herrera. Estrellita Brodsky, outra coleccionista de relevo, comprou outras cinco. Agnes Gund, presidente emérita do Museu de Arte Moderna, comprou várias obras e, juntamente com Bechara, doou uma das pinturas de Herrera a preto e branco ao MoMA.

A recente exposição em Inglaterra, que agora vai para a Alemanha, surgiu por acaso quando um curador se deparou com as pinturas de Herrera na internet. Em Dezembro, o "The Observer" considerou a referida exposição uma das dez melhores do ano, juntamente com uma mostra de Picasso e outra consagrada ao artista pop americano Ed Ruscha.

O êxito tardio de Herrera surpreendeu-a por muitas razões. As suas obras de maiores dimensões vendem-se agora por 30 mil dólares (20,9 mil euros) e uma pintura encomendada por 44 mil dólares (30,6 mil euros) - somas inimagináveis quando a pintora tinha, por exemplo, 80 anos. "Tenho mais dinheiro agora do que alguma vez tive na minha vida", diz.

Mas não sucumbe a uma vida de ócio. Herrera, sentada a uma mesa comprida de onde observa a East 19th Street "como uma porteira francesa", continua a desenhar e a pintar porque tem de o fazer. "É o meu amor pelas linhas rectas que me mantém viva," afirma.
http://www.ionline.pt/

O pintor dos milionários russos conquistou Hollywood
por Nuno Castro
05.05. 2010

A crise levou Nikas Safronov a esquecer os oligarcas de Moscou para pintar Madonna ou Nicole Kidman. Fidel Castro é o próximo alvo

Até há bem pouco tempo, os oligarcas russos eram os seus melhores clientes. Mas a crise económica obrigou os milionários nascidos nas ruínas da União Soviética a fechar a torneira: "Eles agora regateiam. Comecei a viajar mais e a vender a outras pessoas, criei a minha fama. Vivo bem como antes", conta ao "El Mundo" Nikas Safronov.

O pintor russo, conhecido por retratar a corte do Kremlin e todos os capitalistas com muitos rublos na conta bancária, virou-se para outro mercado - geográfico e social. Em vez do ex-presidente Vladimir Putin transformado em Napoleão, passou a desenhar Nicole Kidman com um vestido de época e chapéu vintage ou Madonna com asas de borboleta e cintura de vespa.

Já vamos à explicação para tão bizarros retratos, porque em primeiro lugar para Safronov estão os honorários. Pintores sem dinheiro para comer? Isso era dantes - ou, se calhar, nunca passou de um mito: "Essa história de que os pintores devem ser pobres como Van Gogh é um conto. Ele não era pobre. O irmão, um homem de negócios, tinha muito dinheiro e emprestava-lhe muitas vezes, mas ele gastava tudo em meninas de conduta duvidosa e bebida", diz o retratista que por um quadro pode cobrar entre 40 e 50 mil euros, mas já recebeu um Ferrari do sultão do Brunei - "troquei-o logo por dinheiro, embora abaixo do valor de mercado", lamenta-se, mostrando que o espírito capitalista dos homens que pinta também lhe corre nas veias.

Lugar na história
Apresentado o capitalista (com ares de selvagem), é a vez do artista. Nikas Safronov nasceu na cidade russa de Ulianovsk, fez o serviço militar na Estónia, estudou numa escola de arte na Lituânia e chegou a Moscou aos 27 anos. Cedo percebeu que o Kremlin não era grande admirador das suas pinturas eróticas. Não cedeu (logo) aos rublos e continuou a insistir em criações seminuas.

A perestroika encarregou-se de abrir as mentalidades russas, mas nessa altura já Safronov estava a construir a sua reputação de pintor da corte. A sua nobreza inspiradora eram Mikhail Gorbachev (que vestiu de Joana d'Arc), Vladimir Putin e a oligarquia da cidade.

O resto é história: a crise obrigou-o a expandir-se. Desde então Madonna, Sean Connery, Bill Clinton, George W. Bush, Al Pacino, Sting ou Dustin Hoffman já passaram pela sua tela. Fidel Castro é o próximo alvo. A sua visão muito particular de cada um tem um nome: "Dream Vision. Sou um pintor simbolista místico e o que faço consiste em imagens nebulosas, que tentam captar o momento em que ainda te lembras do sonho". É bom que decore porque a técnica pode fazer escola: "É possível que fique na História da Arte."
http://www.ionline.pt/
Suiça: a crise ameaça a poderosa classe média

por Simon Bradley
07.05. 2010

Quatro entre dez famílias da classe média na Suíça têm dificuldades em terminar o mês com as despesas pagas e são incapazes de economizar dinheiro, como revela uma pesquisa recente. A situação é ainda mais difícil para metade das famílias da classe média baixa. Entretanto, a maioria dos entrevistados estão otimistas em relação ao futuro apesar da crise econômica. É o que revela a revista "Beobachter".

De acordo com a pesquisa organizada pelo instituto Gfs.Bern, 85 por cento das famílias acreditam que a situação econômica se manterá no nível atual durante os próximos cinco anos. Apenas uma família em dez acredita que a situação irá piorar.

Porém, por traz desse otimismo está outra realidade.

Cerca de 38% das famílias de classe média, que representam 60 por cento da população suíça, estão "apertadas" financeiramente.

"Beobachter", uma revista suíça de consumidores, define uma família de classe média como aquela cujo chefe tem rendimento entre 2.450 e 5.250 francos suíços (respectivamente, 2.261 e 4.846 dólares).

"Parte da classe média passa por dificuldades desde que as despesas, incluindo as do seguro de saúde, cresceram mais rápido do que os salários nos últimos anos", avalia Dominique Joye, sociólogo da Universidade de Lausanne.

Daniel Lampart, economista-chefe da Federação Suíça de Sindicatos, também acredita que um número crescente de famílias da classe média "mal paga as contas no final do mês".

Pressões
De acordo com “Beobachter”, os salários médios aumentaram 12 % nos últimos quinze anos, enquanto aluguéis cresceram 16 % ou até mais nas cidades. E os aumentos sucessivos nos preços dos seguros de saúde fazem uma família de quatro pessoas gastar atualmente média de 1.500 francos mensais, ou mais.

Críticos argumentam que o sistema fiscal no país não está mais adequado à situação das famílias da classe média.

Um estudo realizado pela Universidade de St. Gallen ano passado mostrou que quanto maior a renda de um dos pais, menos rentável se torna a segunda renda familiar. Razão: os custos relacionados à guarda das crianças e impostos caem desproporcionalmente sobre a segunda folha de pagamento.

O governo afirma que a isenção fiscal para as famílias de classe média é uma prioridade e propôs, em maio passado, reformas para dar 600 milhões em isenções fiscais diretas às famílias com crianças.

Carros versus crianças
A pesquisa da “Beobachter” mostra que famílias sob pressão financeira estariam mais dispostas a abandonar os planos de ter outra criança do que ter seu automóvel.

Mais de 50 % afirmaram que seria "extremamente duro" e 29 % "difícil" de viver sem um veículo, enquanto 70 % acreditam que poderiam enfrentar bem uma piora da situação financeira sem outro filho.

Apesar das dificuldades financeiras, o futuro das crianças continua sendo uma prioridade. Cerca de 49 % dos entrevistados afirmam que não deixariam de pagar as aulas particulares dos seus filhos. Já 47 % consideram importantes as aulas de músicas e 33 %, que computadores são objetos essenciais no quarto dos filhos.

As férias anuais de esqui ou viagem ao exterior são também importantes para as famílias de classe média na Suíça. Abandonar as férias seria "muito difícil" para 16% das famílias e "um tanto difícil" para 37 %. Mas existe uma "diferença crescente" entre as aspirações da classe média e o que certas categorias de pessoas estão vivenciando atualmente, afirma Joye.

Apertado
As maiores preocupações em relação ao futuro estão ligadas à situação de emprego e o influxo de mão de obra estrangeira, revelou a pesquisa. Cerca de 31 % afirma ter "sérias" preocupações em relação à sua renda ser afetada por estrangeiros que obtém empregos na Suíça.

"Embora silenciosa, a classe média 'apertada' expressa atualmente suas frustrações através das urnas como, por exemplo, na proibição 'xenófoba' de estrangeiros e iniciativas contra as classes ricas como na proposta de controle das bonificações de banqueiros. Essas questões podem ser facilmente instrumentalizadas por partidos políticos", afirma o professor de sociologia da Universidade de Genebra, Sandro Cattacin.

"A classe média na Suíça, assim como em outros países europeus, está sendo espremida por todos os lados. Os pobres estão se tornando um pouco mais ricos e os ricos mais ricos ainda. “Se tornou desconfortável pertencer a classe média, sobretudo através do medo de descer na escala social", analisa Cattacin.
http://www.swissinfo.ch/

Jovem suíça avalia o movimento ecológico no Brasil

por Maurício Thuswohl
17.06.2010

A história de Esther Neuhaus, uma suíça que chegou ao Brasil em 2001 para atuar em movimentos ecológicos e sociais e criou suas raízes. Para ela, a força do movimento socio-ambientalista brasileiro só tende a crescer.

Apesar de ainda enfrentar problemas como o desmatamento da Amazônia, o Brasil é reconhecido por possuir uma das mais avançadas legislações ambientais do mundo. O engajamento do país nas últimas reuniões internacionais promovidas pelo ONU sobre o clima ou a biodiversidade, por exemplo, mostra a importância da agenda ambiental para a sociedade brasileira e para o governo.

Fundamental para essa realidade é o dinamismo do movimento socio-ambientalista no Brasil, onde militam centenas de organizações com considerável poder de influência política e mobilização popular.

Um pouco da rica história desse movimento na última década foi vivido de perto pela suíça Esther Neuhaus. Chegada ao Brasil em 2001, a jovem nascida há 34 anos em Berna se aproximou de algumas organizações no país e atuou por quase sete anos como coordenadora-executiva do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais pelo Meio Ambiente (FBOMS), uma das mais importantes entidades socio-ambientalistas do Brasil. Esther, que acaba de deixar o FBOMS, pretende agora aproveitar a experiência adquirida no Brasil para tentar outros vôos profissionais.

"Tive a oportunidade de trabalhar para esta rede que congrega mais de 600 organizações da sociedade civil, especialmente pequenas e médias ONGs ambientalistas e movimentos sociais. Esta experiência tem sido muito gratificante, pois me permitiu aprender muito sobre os processos de formação, implementação e monitoramento de políticas públicas voltadas para a questão ambiental, e sobre a necessidade de capacitação e qualificação das ONGs e movimentos sociais, atores importantes para a transformação social deste país", diz.

Esther participou de várias edições do Fórum Social Mundial que, segundo ela, "é a melhor plataforma global dos movimentos sociais, onde se discutem alternativas ao atual modelo econômico capitalista e neoliberal". A suíça também representou o FBOMS em eventos internacionais como as reuniões do Programa da ONU sobre Meio Ambiente e as Conferências de Clima, além de ter atuado na organização de um grande fórum global da sociedade civil em paralelo à Conferência da ONU sobre Biodiversidade, realizada em Curitiba (PR) em março de 2006.

"O contato diário com representantes da sociedade brasileira, a interlocução com autoridades governamentais e entidades intergovernamentais, assim como as viagens para os mais diversos países têm me permitido conhecer um mundo com ricos recursos naturais e culturais, mas grandes desigualdades e injustiças. Isto me motivou a me engajar ainda mais na defesa do bem público e dos interesses coletivos, contribuindo para a preservação ambiental, a transformação social e o desenvolvimento sustentável", diz Esther, que representou o FBOMS em eventos na Índia, nos Estados Unidos, na Venezuela, no Quênia, nos Emirados Árabes, no Peru, na Alemanha e na África do Sul.

A suíça atribui o sucesso de seu trabalho aos "seis idiomas nos quais consegue se comunicar" e também a sua experiência em jornalismo: "Entendo minha função como mediadora entre as diferentes culturas, construindo pontes entre Norte e Sul. Tento também seguir meus princípios no cotidiano, como, por exemplo, usar a bicicleta para ir ao trabalho, não comer carne vermelha, separar o lixo e tentar sensibilizar amigos e vizinhos sobre a importância do cuidado com o meio ambiente", diz.

Berna, Madri e Fortaleza
Após cumprir todo o ensino fundamental e secundário em Berna, Esther Neuhaus estudou Geografia na Universidade de Friburgo, com aulas em alemão e francês: "Durante o curso, aprofundei-me nas disciplinas de geologia, economia internacional, sociologia e ciências ambientais, tendo escrito minha monografia final sobre climatologia. Também, cursei jornalismo e ciências da comunicação na mesma universidade, realizando na minha monografia um estudo de caso sobre o maior jornal cubano, o Granma", conta.

Em 2001, Esther se fixou na Espanha para cursar pós-graduação em Informação Internacional e Países em Desenvolvimento na Universidade Complutense de Madri, com um trabalho sobre segurança e meio ambiente, além de cumprir estágio na UNICEF. Em Madri, começou a namorar um advogado paulista, mestrando em Direito da Informática na mesma Complutense.

"No final daquele ano, vim com ele para o Brasil para passar férias, fui ficando, ficando, nos casamos, e nunca mais voltei. O novo contexto cultural me inspirou muito, e queria contribuir para a transformação social e preservação ambiental junto à sociedade brasileira. Assim, comecei a procurar trabalho, morando em Fortaleza, Ceará. Inicialmente, ofereci os meus conhecimentos ambientais, de línguas e de comunicação a ONGs locais de forma voluntária", conta Esther, que hoje mora em Brasília e é mãe de dois filhos.

Aquecimento Global
Antenada com as discussões sobre o combate ao aquecimento global, Esther comenta a frustração com a última conferência da ONU sobre o clima, realizada em dezembro do ano passado em Copenhague: "A expectativa da sociedade civil global era que a conferência na Dinamarca pudesse chegar a um acordo justo, ambicioso e vinculante para reverter o aumento de emissões de gases de efeito estufa. Isto incluiria compromissos ousados dos países industrializados e também ações dos países em desenvolvimento, especialmente os grandes países emergentes que já estão entre os que mais poluem a atmosfera, como o Brasil", diz.

Esther lembra que a avaliação atual por parte de governos e da sociedade civil é que a próxima Conferência do Clima, a se realizar em Cancun (México) no final de 2010, não terá a força política necessária para grandes avanços: "Mesmo assim, não devemos perder as esperanças. A sociedade civil está mais mobilizada que nunca em relação à questão ambiental e climática. Cem mil pessoas manifestaram-se nas ruas de Copenhague para reivindicar um acordo ambicioso como resultado da conferência. No Brasil, centenas de pessoas foram às ruas durante os Dias de Ação pelo Clima organizados ao longo de 2009 para pedir medidas concretas do governo brasileiro e uma Política Nacional de Clima consistente", diz.

A força do movimento socio-ambientalista brasileiro, segundo Esther, só tende a crescer: "Os dirigentes políticos não podem ignorar esta enorme pressão e preocupação da sociedade com as mudanças climáticas. O Brasil será ainda palco, em 2012, da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que poderá representar um marco na discussão do futuro do regime de clima. Eu não perco a esperança".
http://www.swissinfo.ch/

Paul Klee


Museu em homenagem a Paul Klee é inaugurado em Berna
O Centro Paul Klee tem a difícil tarefa de explicar um pintor que preparou o terreno para a arte moderna, mas que considerava, ele próprio, incompreensível.

Klee não é apenas difícil de ser entendido como artista, mas também como pessoa. Apesar de ter tido nacionalidade alemã, é considerado um pintor suíço. Se, de um lado, levava uma vida boêmia, de outro, vivia como um pequeno-burguês.

Apresentamos uma viagem
através da vida,
tempo e obra de Paul Klee

Roteiro
Um homem "made in Switzerland"
Paul Klee (1879-1940) permaneceu cidadão alemão até a sua morte, mesmo sendo completamente "made in Switzerland".

Um bernês, mas não um artista suíço
Paul Klee faleceu antes de conseguir ser naturalizado suíço. Possivelmente graças a isso, o seu espólio ficou intacto na capital suíça.

Na pista do avô
O único neto de Paul Klee, Alexander Klee, nasceu na Bulgária em 1940, ano da morte de seu avô.

Paul Klee e Bauhaus
Quando Paul Klee assumiu suas atividades como professor na Escola Bauhaus em Weimar, em janeiro de 1921, ele já era um renomado pintor da vanguarda artística da época.

Um romântico racional
No catálogo de sua primeira grande exposição individual, em 1914, Paul Klee define o seu estilo como "Romantismo frio".

As cores dos olhos e da alma
Um dos elementos mais importantes na obra de Paul Klee é a cor. No início, ele lidava com as cores apenas sob uma perspectiva teórica. Mais tarde, porém, ele descobriu também a qualidade emocional das cores.

...

Paul Klee permaneceu cidadão alemão até a sua morte, mesmo sendo completamente "made in Switzerland". Ele nasceu e cresceu no cantão de Berna, na Suíça, para onde retornou assim que o regime nazista assumiu o poder e o proibiu de exercer o cargo de professor catedrático na Alemanha.

Klee nasceu a 18 de dezembro de 1879 em Münchenbuchsee, na região de Berna. Sua mãe, Ida Frick, era suíça, e seu pai, Hans Klee, era alemão. Paul tinha uma irmã três anos mais velha do que ele. Como filho de pai alemão, sua nacionalidade permaneceu alemã.

Artista precoce
Reza a lenda que sua avó materna, suíça, foi quem o encaminhou às artes ao lhe dar de presente, aos três anos de idade, papel e lápis de cor. O próprio Klee afirmaria mais tarde que a sua viagem pelo mundo das artes começou nos seus primeiros anos de vida. Ele chegou a catalogar alguns desenhos da sua infância entre as suas obras.

O jovem Klee observava atentamente o mundo ao seu redor, pintava paisagens bernenses e carregava consigo um caderno de rascunhos quando ia visitar parentes ou quando viajava com seu pai pela Suíça.

Quando não estava desenhando, tocando violino ou escrevendo poemas, Klee freqüentava o ginásio no centro da cidade de Berna. Longe de ser um aluno exemplar, Klee passou nos exames finais, em 1898, com a nota mínima.

Mais tarde, escreveria em seu diário: "Eu queria abandonar os estudos no penúltimo ano, mas meus pais não permitiram. Eu me sentia como um mártir. Só gostava de fazer coisas que não eram permitidas na escola: desenhar e escrever."

Seus pais tinham a esperança de que ele se tornasse músico, mas Paul tinha outros planos. Dois meses depois do exame de madureza, Paul deixou a sua cidade natal para estudar desenho em uma escola particular em Munique, na Alemanha.

A volta
Klee permaneceu quatro anos no exterior. Neste período, sua vida mudou radicalmente. Ele concluiu seus estudos de Belas Artes, conheceu aquela que seria sua futura esposa, noivou e viajou pela primeira vez para a Itália.

Em 1902, ele retornou a Berna, voltando a morar na casa de seus pais. Para se sustentar, ele dava concertos como violinista e escrevia crítica de peças de teatro para jornais. Também desenhava muito neste período.

Entre 1903 e 1905, Klee deu dois passos importantíssimos para o seu desenvolvimento artístico. Primeiro, passou a fazer estudos em cobre, criando um ciclo de 11 gravuras.

Segundo, ele desenvolveu uma nova técnica, na qual desenhava com agulha sobre um pedaço de vidro preto de fuligem. Com esta técnica realizou quase 60 desenhos.

Um ano mais tarde, Klee deixava a Suíça pela segunda vez. Casa-se com a pianista Lily Stumpf, alemã de Munique, e passa a viver com ela na capital da Baviera.

Mas ele nunca abandonou Berna completamente. Depois do nascimento de seu filho Felix, em 1907, Klee passava vários meses por ano com o filho na casa de seus pais, enquanto Lily dava aulas de piano em Munique, para ajudar no sustento da família.

As cartas de Paul deste período mostram que ele gostava de estar em Berna. Seus pais cuidavam do pequeno Felix, e assim ele conseguia se dedicar inteiramente ao trabalho.

Outra volta ao lar
Depois de quase 30 anos no exterior, Klee retorna à Suíça em dezembro de 1933, mas desta vez não exatamente de livre e espontânea vontade. Os nazistas tinham assumido o poder na Alemanha e não havia mais futuro para Klee por lá.

Klee, que nessa época já era um artista de renome e ganhava bem com a venda de suas obras e seu salário de professor catedrático, passou, de uma hora para outra, a ser considerado indesejável na Alemanha.

Os nazistas o classificaram de “artista degenerado" e retiraram todas as suas obras dos acervos públicos da Alemanha. Paul e sua família fugiram para a casa dos seus pais, na Suíça.

Sem o ambiente artístico, a boemia e o estímulo intelectual a que estava acostumado, Klee sentia-se muito isolado na provinciana Berna.

Passados alguns meses, Klee e Lily mudaram-se para um apartamento na rua Kistlerweg, no arborizado bairro de Elfenau. Em dias de céu claro, eles podiam ver os picos dos Alpes da varanda de seu apartamento.

Uma sala do apartamento era chamada de “sala de música da Lily", outra de “ateliê de Paul". Nos poucos anos de vida que lhe restavam, Klee realizou, nesse apartamento, mais de 2700 obras.

Neste período, Klee tentou várias vezes obter a cidadania suíça, mas sempre em vão. Na primeira vez que a cidadania lhe foi negada, alegaram que ele não satisfazia os critérios de permissão de domicílio. Ele não chegou a ver o fim do segundo processo de naturalização.

Doença e Morte
Problemas de saúde somavam-se ao seu sentimento de isolamento. Com fortes dores de estômago, Klee perdia muito peso e sofria de dermatosclerose, uma doença das fibras colágenas da derme que endurece a pele e reduz a sua flexibilidade e mobilidade. No final da vida, ele mal conseguia engolir os alimentos e sofria de incontinência uninária.

Os médicos da época não conseguiram diagnosticar a sua doença. Hoje sabe-se que Klee sofria de esclerodermia, uma doença auto-imune incurável.

Após o seu retorno a Berna, em 1933, Klee esteve internado em diversos sanatórios e veio a falecer a 29 de junho de 1940 em uma clínica em Locarno-Murano, no cantão do Ticino.

Com isso, o seu processo de naturalização, cuja audiência já estava marcada, caducou.

Sua mulher, Lily, conservou a urna com as cinzas de Klee no seu ateliê, no apartamento da rua Kistlerweg, até a sua morte, em 1946.

Um bernês, mas não um artista suíço
Paul Klee faleceu antes de conseguir ser naturalizado suíço. Possivelmente graças a isso, o seu espólio ficou intacto na capital suíça. A venda das obras de Klee pelos seus descendenttes foi impedida por quatro dos seus colecionadores de Berna através da compra do acervo. O fato de Berna ter protelado a naturalização de Klee até ele morrer é, ainda hoje, alvo de críticas.


O Centro Paul Klee, inaugurado no dia 20 de junho na zona leste da cidade de Berna, representa "uma oportunidade única de resgatar a dívida da cidade para com Klee e sua família", afirma o ex-prefeito de Berna Klaus Baumgartner. Por outro lado, um centro como esse ficaria praticamente inviabilizado se Klee tivesse se naturalizado em vida.

Indesejável na Alemanha nazista
Após assumir o poder na Alemanha, em 1933, o partido nazista passou imediatamente a perseguir os representantes da arte moderna. O apartamento de Paul Klee em Dessau foi revistado pela polícia e pela SA.


Em seguida, os nazistas proibiram os pintores „degenerados" de trabalhar e suspenderam Klee de seu cargo de professor da Academia de Artes em Düsseldorf. A 23 de dezembro de 1933, Klee partiu com sua mulher para o exílio, de volta para Berna.

Exílio na terra natal
Embora Klee tenha nascido em Berna, estudado nessa cidade e aí esteja enterrado, seu pai, alemão, nunca se naturalizou suíço. Por esse motivo, o retorno de Klee à sua terra natal foi na condição de imigrante.

Logo após a sua chegada, na primavera de 1934, Klee entra com um pedido de naturalização, que lhe é negado por causa do Acordo de Berlim, de 4 de maio de 1933. Segundo esse acordo, cidadãos alemães só poderiam requerer a cidadania suíça após terem residido por cinco anos ininterruptos na Suíça.

Em abril de 1939, Klee entra com um segundo pedido de naturalização que é imediatamente examinado pelas autoridades. De forma semelhante ao que ocorria na Alemanha nazista, o confronto entre a arte tradicional e a arte moderna havia se acirrado também na Suíça. A arte moderna era desqualificada por estar supostamente vinculada à política de esquerda.

Morte antes da naturalização
Um policial anônimo apresentou ao chefe de Polícia do cantão de Berna relatórios secretos que formavam um dossiê. Nesses relatórios, ele advertia das más influências que o trabalho de Klee exerceria sobre a arte nacional, taxava-a de produto de um doente mental e, finalmente, contestava uma profunda ligação de Klee com a Suíça.

Apesar do relatório policial, Klee recebeu a confirmação oficial de entrada do seu processo de naturalização. Finalmente, ele podia requerer direitos civis em Berna. Após algumas audiências, as autoridades municipais fixaram a data de 5 de julho de 1940 para a decisão final sobre a naturalização de Klee. Paul Klee morreu uma semana antes desta audiência, ficando o seu caso, por este motivo, fora da pauta.

A viúva de Klee, Lily, permaneceu em Berna como cidadã alemã e, na mesma cidade, administrava o espólio de seu esposo. Em setembro de 1946 ela foi vítima de uma doença grave. Seu filho e único herdeiro encontrava-se a caminho da Alemanha, fugindo de uma prisão russa.

Liquidação impedida
Com a morte de Lily, todas as propriedades da família Klee bem como todo o espólio artístico do pintor seriam transferidos para Felix. O Acordo de Washington, realizado pelos Aliados e que a Suíça acabara de assinar, exigia a liquidação de todos bens de alemães residentes na Suíça.

Para evitar a liquidação do espólio de Klee, os colecionadores bernenses, Hans Meyer-Benteli, Hermann Rupf, Rolf Bürgi e Werner Allenbach, amigos do casal Klee, adquiriram, no dia 20 de setembro de 1946, dois dias antes da morte de Lily Klee, todas as obras do espólio artístico de Paul Klee e transferiram a coleção para a Sociedade Klee. Um ano mais tarde, esta sociedade criou a Fundação Paul Klee e alojou toda a coleção no Museu de Arte de Berna.

Reunidas 52 anos mais tarde
Em 1948, Felix Klee mudou-se com a família para Berna e quis fazer valer os seus direitos de herdeiro universal de todo o espólio. No final de 1952, após quatro anos de brigas na Justiça, Felix e a Sociedade Klee fecharam um acordo extrajudicial. O espólio foi dividido, mas as duas coleções permaneceram em Berna.

Graças à iniciativa dos herdeiros de Felix Klee, da Fundação Paul Klee e das autoridades bernenses, estas duas coleções foram reunidas agora no Centro Paul Klee.
por Nicole Aeby

...

Paul Klee e Bauhaus

Quando Paul Klee assumiu suas atividades como professor na Escola Bauhaus em Weimar, em janeiro de 1921, ele já era um renomado pintor da vanguarda artística da época. Sob o lema "Arte e Tecnologia - Uma nova Unidade", a escola pretendia, segundo a concepção de seu fundador, o arquiteto Walter Gropius, formar uma geração de artistas-artesãos.
Em um manifesto da Bauhaus, Gropius, que era simpatizante das idéias socialistas, escreveu que a escola iria "estabelecer uma corporação de artesãos sem a presunçosa divisão de classes, que tenta erigir um muro separando artesãos e artistas".

Seguindo a concepção de unir a formação artística à formação prática, os trabalhos nas oficinas da Bauhaus, nos primeiros anos da escola, eram coordenados conjuntamente por um artista plástico e por um mestre artesão.

Klee iniciou lecionando no ateliê de encadernação. Depois, assumiu a chefia da oficina de pintura em vidro e afrescos. Sua atividade como professor na Bauhaus obrigou-o a desenvolver e formular claramente as suas idéias sobre aspectos teóricos da pintura e da arte.

Anteriormente, ele havia desenvolvido suas reflexões teóricas a respeito da arte pricipalmente em seu diário e em cartas enviadas à sua esposa, a pianista Lily Stumpf, que viajava muito fazendo turnês.

Professor dedicado
Wolfgang Thöner, colaborador científico da Fundação Bauhaus, em Dessau, ressalta, em entrevista à swissinfo, que Klee era um professor muito dedicado. "Ele preparava suas aulas meticulosamente, até nos mínimos detalhes, como nenhum outro artista na Bauhaus fazia", diz Thöner.

A reação dos estudantes em relação ao professor Klee era muito variada. "A opinião dos especialistas em Klee é, porém, unânime em um aspecto: suas aulas constituíam um desafio intelectual de alto nível. Alguns de seus alunos não se adaptavam ao seu jeito. Muitos outros, entretanto, tiveram experiências valiosíssimas com Klee e aprenderam muito com ele", esclarece Thöner.

Outra característica típica de Klee era ressaltar constantemente que a sua maneira de abordar as questões não era a única possível. "Ele sempre revelava como tinha chegado a essa ou àquela solução. Ao contrário de alguns de seus colegas na Bauhaus, ele não era nada dogmático", acrescenta Thöner.

Sistemático
As teorias que Klee desenvolveu durante os anos em que trabalhou na Bauhaus eram, via de regra, claramente visíveis na sua obra. "Ele tinha um conceito de forma muito dinâmico e criava constantemente modelos que ele próprio acabava utilizando em suas composições quadradas", esclarece Thöner.

Há alguns indícios, porém, de que Klee nem sempre cumpria com suas obrigações de docente de maneira satisfatória. Tudo indica que às vezes ele faltava durante algum tempo às aulas, sem informar aos seus colegas ou alunos.

Seus colegas de Bauhaus constataram que, nestes períodos, era inútil insistir para que ele voltasse à escola. A postura de Klee fica clara na sua resposta a uma destas tentativas de fazê-lo retornar: "Em primeiro lugar e antes de mais nada, sou um artista na ativa."

Vida burguesa
Os anos passados em Dessau proporcionaram à família Klee uma vida confortável, com um ótimo salário, um emprego conceituado e uma casa ampla com um grande ateliê planejado pelo próprio Gropius. "Klee sempre quis levar uma vida burguesa, e o emprego em Dessau deu-lhe esta possibilidade por alguns anos", relata Thöner.

Klee tinha orgulho de seu título de professor catedrático na Bauhaus e dos privilégios de que gozava neste cargo. No final dos anos 20, quando a Bauhaus passou a ter dificuldades financeiras e Gropius lhe pediu que aceitasse uma redução de salário, Klee recusou. Ele era um dos mestres mais bem pagos da Bauhaus.

"É claro que era uma contradição: o incompreendido artista de vanguarda que fazia questão de gozar do reconhecimento burguês", acrescenta Thöner. Na sua opinião, Klee estava tão satisfeito em Dessau que, por ele, passaria o resto da vida lá.

Rachaduras e fendas
Mas esta confortável situação não duraria muito tempo. Tornava-se cada vez mais difícil para Klee conciliar seus ideais artísticos com a sua atuação na Bauhaus. Em 1928, Klee escreve à sua esposa Lily: "As exigências internas e internas são tão grandes que eu perco completamente a sensação de tempo. O peso na consciência me persegue."

Finalmente, Klee decidiu abandonar a Bauhaus. Em 1930, a Academia de Artes de Düsseldorf oferece-lhe um cargo que ele, um ano mais tarde, termina por aceitar. Sua família, que no início ainda permaneceu em Dessau, deveria juntar-se a ele em 1933. Mas os planos da família Klee foram abalados pelos acontecimentos históricos.

Em 1933, o nacional-socialismo assume o poder na Alemanha, e, para Klee, artista moderno, as perspectivas não são nada promissoras. Imediatamente após a troca do poder, a Academia recebe um novo diretor, explicitamente vinculado ao partido nazista alemão.

Poucos dias antes de sua família mudar-se para Düsseldorf, Klee é demitido da Academia de Artes sem aviso prévio. Depois de constatar que não tinha futuro na Alemanha nazista, a família Klee deixa o país em dezembro de 1933 e muda-se para a Suíça.


por Faryal Mirza

...

Um romântico racional

No catálogo de sua primeira grande exposição individual, em 1914, Paul Klee define o seu estilo como "Romantismo frio". "Se Jean-Auguste-Dominique Ingres criou uma ordem na ausência de movimento, eu quero criar uma ordem no movimento, mas sem aquele páthos", escreveu Klee.

Para melhor descrever o Romantismo abstrato, ou frio, de Paul Klee, consideremos uma obra-chave do Romantismo alemão: "O viajante junto a um mar de neblina", de Caspar David Friedrich, 1818.

A composição dinâmica entre nuvens, penhasco e neblina em uma região montanhosa reflete a comoção do ser humano diante da criação e de sua ânsia pelo eterno. A relação mística bem como a profunda relação entre a natureza e o homem aparecem também constantemente nos trabalhos de Paul Klee. Não em forma de paisagem real, mas como uma composição de formas geométricas e de setas.

" A arte não reproduz o visível,
mas, sim, torna visível " Paul Klee


O jovem Klee explicava que tematizava a morte e a ânsia pela morte, não como uma desistência definitiva da vida, mas como uma tentativa de atingir a perfeição. Tal afirmativa é fortemente influenciada pelo espírito do Romantismo tardio.

Conhecendo a tradição
Embora Klee tenha crescido em um período impregnado pelo Romantismo tardio alemão, que era contra a tradição acadêmica baseada na antigüidade greco-romana, sua relação pessoal com as obras dos clássicos da Antigüidade desempenhou um papel fundamental na sua formação. Com 20 anos recém completos, Klee foi para Roma estudar as proporções da arquitetura clássica.

Números e proporções 'mágicos’, também presentes na natureza (por exemplo, nas folhas e líquens que Klee colecionava), não eram para ele símbolos de frieza e distanciamento, mas, sim, expressão da vida e material de contemplação artística.

Para Klee, a arte dos clássicos era "uma base importante que todos os artistas modernos deveriam conhecer e superar, a fim de criar o novo", esclarece o historiador da arte Michael Baumgartner.

Em sua obra gráfica, Paul Klee foi influenciado principalmente por Francisco de Goya e pelo Expressionismo de James Ensor e de Alfred Kubin. Entre 1908 e 1912, em exposições em Munique, ele travou os primeiros contatos com as obras de Vincent Van Gogh, Henri Matisse e Paul Cézanne. Sobre o último, ele dizia tratar-se de um verdadeiro mestre da profissão, maior do que Van Gogh.

Criatividade orgânica
Sabe-se que Klee só chegou à pintura depois de muitos estudos e de muitos anos de experimentos - mal ou bem-sucedidos - nesta área. Fundamentais para a sua trajetória foram os seus encontros com Robert Delaunay, o mestre das cores, e, naturalmente, com August Macke, Franz Marc e Wassily Kandinsky.

Os fundadores do grupo "Der blaue Reiter" - O Cavaleiro Azul - defendiam um ideário semelhante ao seu. Após uma fase de isolamento mais ou menos voluntário, Klee passou a trabalhar junto com outros artistas, o que promoveu um grande avanço no seu desenvolvimento.

Para Klee, como Kandinsky, o artista tinha de encontrar a fonte de inspiração em si próprio, na criança que dorme no âmago do próprio ser, na criatividade inconsciente e expontânea.

A influência de Klee sobre outros artistas
Klee não fundou um movimento artístico próprio, a exemplo do que fez Kandinsky. Mas, mesmo assim, pode-se afirmar com certeza que todos os pintores posteriores a Klee, mais cedo ou mais tarde, estudaram a sua obra.

Seus seguidores mais diretos foram Fritz Winter, Willy Baumeister, Max Bill e Otto Nebel. "Vários artistas minimalistas, como Sol Lewit, seguiram as suas pegadas. Suas idéias influenciavam mais do que o seu estilo. Andy Warhol, por exemplo, estudou intensivamente os seus escritos; mas não se pode dizer que o trabalho de Klee o tenha influenciado", explica Michael Baumgartner.

Eram sobretudo as suas idéias - como o significado espiritual da busca artística ou a paz meditativa e poética que ele via associada ao trabalho artístico e à contemplação da arte - que inspiravam estes artistas. "Os surrealistas consideravam Klee um dos seus. Picasso o admirava muito", complementa Baumgartner.

Picasso também defendia a opinião de que toda criança é um artista e que o artista deveria simplesmente esforçar-se a vida inteira para voltar a ser esta criança. Era o que Klee defendia. Entre as personalidades que muito influenciaram o trabalho de Klee encontra-se, entre outros, o seu próprio filho Felix.

Quando jovem, Klee era quem cuidava da casa e do filho, enquanto a sua esposa, que era pianista, fazia concertos e dava aulas de música no exterior. Até neste aspecto, Klee estava muito à frente do seu tempo.

...

As cores dos olhos e da alma

Um dos elementos mais importantes na obra de Paul Klee é a cor. No início, ele lidava com as cores apenas sob uma perspectiva teórica. Mais tarde, porém, ele descobriu também a qualidade emocional das cores.

"A cor me possui [...] Eu e a cor somos um [...] Sou pintor", escreveu Klee em seu diário durante sua viagem à Tunísia. Essa viagem representou uma virada na sua obra.

Paul Klee dizia, a respeito das cores, em suas aulas na escola de Bauhaus, entre 1921 e 1922: "A diferença entre um tom vermelho e uma cor que não contém nada de vermelho é imensa. Por isso, não me interessa o que o tom vermelho contém. A mim interessa muito mais o que o vermelho não contém."

Uma determinada cor, na opinião de Klee, não é comparável a uma voz, mas, sim, a uma espécie de acorde de três vozes. Os pais de Klee eram músicos, ele próprio era um excelente violinista e, como se não bastasse, ele era casado com uma pianista. Não é, portanto, de admirar, que em seus ensaios teóricos e nas suas aulas falasse em polifonia das cores, acordeão de cores e partitura de cores.

A descoberta da cor
Nas poucas telas que Klee pintou no início de sua carreira artística, ele usou as cores com moderação. Suas aquarelas mostram que o valor do matiz de um tom em uma escala de cores o interessava mais do que o seu efeito psicológico.

"No início, Paul Klee trabalhava principalmente com as diversos matizes, especialmente de tons avermelhados. Tons de marrom e verde eram mais difusos. Isso só mudou depois que ele próprio declarou ter descoberto as cores ", esclarece o historiador da arte Michael Baumgartner.

Entre 1913 e 1914, Klee utiliza pela primeira vez cores intensas. "As cores primárias vermelho, amarelo e azul ganham em importância, assim como as cores contrastivas complementares, e isso dentro de toda a escala de cores," declarou Klee. Ele via um novo mundo, como tons menos cinzentos.

A intensa luz do Sul
Neste aspecto, Klee foi fortemente influenciado por Robert Delaunay, cujo artigo "La Lumière" - A Luz - ele traduziu em 1913. Um ano mais tarde, Klee viaja para a Tunísia e lá, sob a intensa luz do sul, ele descobre a força emocional das cores. Esta experiência foi muito marcante para ele.

Até então, Klee tinha trabalhado sempre com desenhos e gravuras. Quando pintava, fazia aquarelas. Depois desta viagem, porém, Klee absorveu as idéias de Delaunay, ampliou-as e transformou-as na sua própria linguagem visual, com características muito específicas.

O arco-íris, a forma mais abstrata da natureza

Sob a influência de Delaunay, Klee teve a idéia de trabalhar diretamente com o espectro de cores. Segundo Klee, o arco-íris está acima de tudo o que tem cor. "O arco-íris é emprego, elaboração e combinação abstrata de cores."

Curiosamente, a nova relação de Klee com as cores fez com que ele desenvolvesse mais as suas técnicas de pintura a óleo. Suas composições tornam-se mais abstratas, as linhas, mais livres. Os títulos das telas passaram a refletir, muitas vezes, experiências e vivências pessoais.

Surgem na sua arte conceitos como dinâmica do movimento
e relação entre a energia individual e a energia cósmica.

Alguns anos mais tarde, Klee desenvolve, a partir dessa base, uma teoria de romantismo que, em vez de se orientar pelo classicismo, se orienta pela liberdade de expressão.

Artista e pesquisador
Com suas descobertas sobre as cores e seus efeitos, Paul Klee enriqueceu a arte moderna não apenas como pintor, mas também como teórico.

"Ele reinterpretou a teoria de luz e cores de Robert Delaunay, transformando-a em uma pintura poética própria. Paralelamente a isso, realizou experimentos com o objetivo de ampliar a escala de combinação de cores, por exemplo de cores complementares contrastivas e de cores quentes e frias", explica-nos Baumgartner.

No trato com as cores, o artista Klee deixava-se guiar pela intuição e pelos sentimentos. Por outro lado, estruturava o seu dia metodicamente, o que, ao mesmo tempo, favorecia os seus minuciosos estudos teóricos.

por Raffaella Rossello

Tradução de Fabiana Macchi
O que é o Fórum Social Mundial?
01.07.2010

O FSM é um espaço de debate democrático de idéias, aprofundamento da reflexão, formulação de propostas, troca de experiências e articulação de movimentos sociais, redes, ONGs e outras organizações da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo. Após o primeiro encontro mundial, realizado em 2001, se configurou como um processo mundial permanente de busca e construção de alternativas às políticas neoliberais. Esta definição está na Carta de Princípios, principal documento do FSM.

O Fórum Social Mundial se caracteriza também pela pluralidade e pela diversidade, tendo um caráter não confessional, não governamental e não partidário. Ele se propõe a facilitar a articulação, de forma descentralizada e em rede, de entidades e movimentos engajados em ações concretas, do nível local ao internacional, pela construção de um outro mundo, mas não pretende ser uma instância representativa da sociedade civil mundial. O Fórum Social Mundial não é uma entidade nem uma organização.

...

Carta de princípios


O Comitê de entidades brasileiras que idealizou e organizou o primeiro Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre de 25 a 30 de janeiro de 2001, considera necessário e legítimo, após avaliar os resultados desse Fórum e as expectativas que criou, estabelecer uma Carta de Princípios que oriente a continuidade dessa iniciativa. Os Princípios contidos na Carta, a ser respeitada por tod@s que queiram participar desse processo e organizar novas edições do Fórum Social Mundial, consolidam as decisões que presidiram a realização do Fórum de Porto Alegre e asseguraram seu êxito, e ampliam seu alcance, definindo orientações que decorrem da lógica dessas decisões.

1. O Fórum Social Mundial é um espaço aberto de encontro para o aprofundamento da reflexão, o debate democrático de idéias, a formulação de propostas, a troca livre de experiências e a articulação para ações eficazes, de entidades e movimentos da sociedade civil que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo, e estão empenhadas na construção de uma sociedade planetária orientada a uma relação fecunda entre os seres humanos e destes com a Terra.

2. O Fórum Social Mundial de Porto Alegre foi um evento localizado no tempo e no espaço. A partir de agora, na certeza proclamada em Porto Alegre de que "um outro mundo é possível", ele se torna um processo permanente de busca e construção de alternativas, que não se reduz aos eventos em que se apóie.

3. O Fórum Social Mundial é um processo de caráter mundial. Todos os encontros que se realizem como parte desse processo têm dimensão internacional.

4. As alternativas propostas no Fórum Social Mundial contrapõem-se a um processo de globalização comandado pelas grandes corporações multinacionais e pelos governos e instituições internacionais a serviço de seus interesses, com a cumplicidade de governos nacionais. Elas visam fazer prevalecer, como uma nova etapa da história do mundo, uma globalização solidária que respeite os direitos humanos universais, bem como os de tod@s @s cidadãos e cidadãs em todas as nações e o meio ambiente, apoiada em sistemas e instituições internacionais democráticos a serviço da justiça social, da igualdade e da soberania dos povos.

5. O Fórum Social Mundial reúne e articula somente entidades e movimentos da sociedade civil de todos os países do mundo, mas não pretende ser uma instância representativa da sociedade civil mundial.

6. Os encontros do Fórum Social Mundial não têm caráter deliberativo enquanto Fórum Social Mundial. Ninguém estará, portanto autorizado a exprimir, em nome do Fórum, em qualquer de suas edições, posições que pretenderiam ser de tod@s @s seus/suas participantes. @s participantes não devem ser chamad@s a tomar decisões, por voto ou aclamação, enquanto conjunto de participantes do Fórum, sobre declarações ou propostas de ação que @s engajem a tod@s ou à sua maioria e que se proponham a ser tomadas de posição do Fórum enquanto Fórum. Ele não se constitui portanto em instancia de poder, a ser disputado pelos participantes de seus encontros, nem pretende se constituir em única alternativa de articulação e ação das entidades e movimentos que dele participem.

7. Deve ser, no entanto, assegurada, a entidades ou conjuntos de entidades que participem dos encontros do Fórum, a liberdade de deliberar, durante os mesmos, sobre declarações e ações que decidam desenvolver, isoladamente ou de forma articulada com outros participantes. O Fórum Social Mundial se compromete a difundir amplamente essas decisões, pelos meios ao seu alcance, sem direcionamentos, hierarquizações, censuras e restrições, mas como deliberações das entidades ou conjuntos de entidades que as tenham assumido.

8. O Fórum Social Mundial é um espaço plural e diversificado, não confessional, não governamental e não partidário, que articula de forma descentralizada, em rede, entidades e movimentos engajados em ações concretas, do nível local ao internacional, pela construção de um outro mundo.

9. O Fórum Social Mundial será sempre um espaço aberto ao pluralismo e à diversidade de engajamentos e atuações das entidades e movimentos que dele decidam participar, bem como à diversidade de gênero, etnias, culturas, gerações e capacidades físicas, desde que respeitem esta Carta de Princípios. Não deverão participar do Fórum representações partidárias nem organizações militares. Poderão ser convidados a participar, em caráter pessoal, governantes e parlamentares que assumam os compromissos desta Carta.

10. O Fórum Social Mundial se opõe a toda visão totalitária e reducionista da economia, do desenvolvimento e da história e ao uso da violência como meio de controle social pelo Estado. Propugna pelo respeito aos Direitos Humanos, pela prática de uma democracia verdadeira, participativa, por relações igualitárias, solidárias e pacíficas entre pessoas, etnias, gêneros e povos, condenando todas as formas de dominação assim como a sujeição de um ser humano pelo outro.

11. O Fórum Social Mundial, como espaço de debates, é um movimento de idéias que estimula a reflexão, e a disseminação transparente dos resultados dessa reflexão, sobre os mecanismos e instrumentos da dominação do capital, sobre os meios e ações de resistência e superação dessa dominação, sobre as alternativas propostas para resolver os problemas de exclusão e desigualdade social que o processo de globalização capitalista, com suas dimensões racistas, sexistas e destruidoras do meio ambiente está criando, internacionalmente e no interior dos países.

12. O Fórum Social Mundial, como espaço de troca de experiências, estimula o conhecimento e o reconhecimento mútuo das entidades e movimentos que dele participam, valorizando seu intercâmbio, especialmente o que a sociedade está construindo para centrar a atividade econômica e a ação política no atendimento das necessidades do ser humano e no respeito à natureza, no presente e para as futuras gerações.

13. O Fórum Social Mundial, como espaço de articulação, procura fortalecer e criar novas articulações nacionais e internacionais entre entidades e movimentos da sociedade, que aumentem, tanto na esfera da vida pública como da vida privada, a capacidade de resistência social não violenta ao processo de desumanização que o mundo está vivendo e à violência usada pelo Estado, e reforcem as iniciativas humanizadoras em curso pela ação desses movimentos e entidades.

14. O Fórum Social Mundial é um processo que estimula as entidades e movimentos que dele participam a situar suas ações, do nível local ao nacional e buscando uma participação ativa nas instâncias internacionais, como questões de cidadania planetária, introduzindo na agenda global as práticas transformadoras que estejam experimentando na construção de um mundo novo solidário.

Aprovada e adotada em São Paulo, em 9 de abril de 2001, pelas entidades que constituem o Comitê de Organização do Fórum Social Mundial, aprovada com modificações pelo Conselho Internacional do Fórum Social Mundial no dia 10 de junho de 2001.


...

Agenda


Julho
Evento: Fórum Social Europeu
Local: Istanbul, Turquia
Data: 1º a 4 de julho
Contato: tsf@sosyalforum.org
Site: http://www.sosyalforum.org/

Evento: IV Edição do evento “Étrange Rencontre”
Local: Guiné
Data: Julho
Contato: Zoul: zoul@no-log.org
zoul@mytronunya.info
Site: http://www.etrangerencontre.org/

Evento: I Fórum Mundial para Cultura e Edução para Transformação Local: Belém, Brasil
Data: 24 a 26 de julho
Contato: Dan Baron: danbaronmst@hotmail.com

Agosto
Evento: Fórum Social Américas 2010
Local: Assunção, Paraguai
Data: 11 a 15 de agosto
Contato: Magdalena León: consejo@forosocialamericas.org
José Miguel Hernandes: jmamerica@yahoo.com.mx

Setembro
Evento: Grito dos Excluídos
Local: Mais de 600 municípios brasileiros
Data: 7 de setembro
Contato: gritoexcluidos@uol.com.br
Site: http://www.gritodosexcluidos.com.br/

Outubro
Evento: Fórum Social das Migrações
Local: Quito, Equador
Data: 08 a 10 de outubro
Contato: secretaria@fsmm2010.org
Site: http://www.fsmm2010.org/

Evento: 12º Grito dos Excluidos Continental
Local: em 23 países
Data: 12 de outubro de 2010
Contatos: gritoexcluidos@uol.com.br/
gritoexcluidos@ig.com.br
Site: http://www.gritodelosexcluidos.org/

Evento: Fórum Temático sobre Meio Ambiente, Migração e Segurança Alimentar
Local: Niamey, Níger
Data: 15 a 19 de outubro
Contato: Moussa Tchangari: tchangari@yahoo.fr
tchangari@cooperation.net

Evento: Fórum Mundial de Educação
Local: Palestina
Data: 28 a 31 de outubro (a confirmar)
Contato: Kathia Dudyk: kathia@paulofreire.org
cifme@forummundialeducacao.org
Refaat Sabbah: refat@teachercc.org
Marjon Goetinck: marjon@wef-palestine.org

Novembro
Evento: Fórum temático de Questões Trabalhistas
Local: Argélia
Data: Novembro
Contato: Hamouda: hsoubhi@alternatives.ca
Kamal: lahbib_2006@menara.ma

Evento: Fórum de Rádios Comunitárias
Local: La Plata, Argentina
Data: 8 a 13 de novembro

Evento: V Fórum Social Pan-amazônico
Local: Santarém, Pará, Brasil
Data: Última semana de novembro
Contato: Aldalice Otterloo: aotterloo@unipop.org.br
Site: http://www.forumsocialpanamazonico.org/

Dezembro
Evento: Fórum Social Nigeriano
Local: Lagos, Nigéria
Data: Dezembro
Contato: Oluwole Oshota: ooshota@hotmail.com
/metarch@hotmail.com

Evento: Fórum temático sobre Democracia
Local: Dacca, Bangladesh
Data: Dezembro

Evento: Fórum Mundial de Educação - Temático sobre Educação, Pesquisa e Cultura de Paz
Local: Santiago de Compostela, Galícia.
Data: 9 a 13 de dezembro
Contato: Kathia Dudyk: kathia@paulofreire.org
cifme@forummundialeducacao.org

...


Participe do Fórum Social Mundial

ao longo de todo 2010

No ano que completa dez anos de existência, o Fórum Social Mundial experimenta um novo formato. Em 2010, movimentos sociais e organizações civis vão organizar em todo o mundo seus próprios fóruns para debater alternativas para a crise civilizatória que assola a humanidade. As respostas para essa crise - que muito mais que financeira, é também ética, política, ambiental, climática, de justiça, entre outros aspectos – só serão possíveis com a mobilização de diferentes atores da sociedade. É por isso que estamos convidando a todos os interessados a se juntarem a nós.

Para realizar um fórum ou mesmo uma atividade menor com a bandeira da Fórum Social Mundial é preciso, em primeiro lugar, estar alinhado com a carta de princípio do FSM. Além disso, assumir o compromisso de levar o tema “crise civilizatória” a debate durante o evento.

Os resultados das discussões devem ser compilados e encaminhados para o escritório (pelo e-mail fsm2010@forumsocialmundial.org.br
ou pelo endereço R. General Jardim, 660 – 8 andar – sala 81). Esses documentos servirão de base para a construção do Fórum Social Mundial 2011, que será realizado em Dakar (Senegal/África), em janeiro de 2011.

No http://www.worldsocialforum.info/press-room/useful-materials
você encontra o logotipo do FSM 2010 em alta definição para ser utilizado nos materiais de comunicação dos eventos. Queremos o nosso do FSM logo em todos os continentes, todos os países, todos os estados, todas as cidades, todas os bairros, todas as esquinas. Só assim, com ampla participação da sociedade construiremos alternativas para o sistema neoliberal que nos levou a essas crises.

Nossas respostas à crise global

Desde a crise financeira do ano passado, muitos bancos foram salvos, mas o planeta e o futuro da humanidade continuam em risco. A maior parte das pessoas hoje vive de forma insegura e infeliz. Apesar de toda a propaganda do sistema hegemônico, é cada vez maior o número de pessoas que sabem que a forma como são obrigadas a viver tem que mudar.

Há dez anos, uma grande coalização da sociedade civil, nunca antes vista na história da humanidade, formada por um número inacreditável de organizações e redes sociais, se reuniram no processo do Fórum Social Mundial para dizer que "Outro mundo é possível".

Durante a última década, essa coalização cresceu e envolveu novos atores e regiões, dando a todos os envolvidos mais força para enfrentar nossas lutas, compartilhando boas práticas e visões.

Hoje, com todas as nossas diferenças e na nossa diversidade, estamos ainda mais convencidos de que há maneiras de evitar a catástrofe climática, impedir o aumento da pobreza e do desemprego, e evitar novas devastações sociais e culturais, sem guerra, militarismo, colonialismo, patriarcado ou racismo.

Precisamos de uma outra sociedade, uma outra economia, uma nova relação entre a humanidade e o planeta Terra e uma democracia mais radical. Ao longo de 2010, em todo o mundo, serão realizados encontros e reuniões para fortalecer nossas respostas alternativas à crise global, envolver novos atores, mobilizar novas energias sociais e desafiar o poder existente.
http://www.forumsocialmundial.org.br/