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LIVRO

2666 - Roberto Bolaño

Difícil de Roubar, Ótimo de Ler

O romance póstumo do chileno Roberto Bolaño, 2666, é arrebatador em suas quase mil páginas. Recusando-se a carregar a placa de latino-americano no pescoço, o autor se tornou um fenômeno na Europa e nos Estados Unidos

Por Eduardo Simantob *
Maio, 2010

O escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003) era, na juventude, um exímio ladrão de livrarias. Quando lançou o seu primeiro grande romance, Os Detetives Selvagens, em 1998, pediu desculpas aos seus leitores pelo fato de o livro ser, justamente, grande demais. Com mais de 700 páginas, tratava-se - como observou em uma entrevista - de um tijolo difícil de afanar. Para os gatunos das prateleiras, Bolaño deixou um desafio ainda mais ousado no último livro que escreveu, publicado postumamente. Com previsão de lançamento no Brasil neste mês, o inacabado 2666 é um calhamaço de quase mil páginas que - mais que uma dificuldade para cleptomaníacos - ajudou a transformar Bolaño numa lenda do mundo literário.
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Legal ou ilicitamente, Bolaño tem sido avidamente lido e cultuado há mais de uma década, e já era uma estrela literária em espanhol quando foi descoberto pelos americanos. Publicado em inglês em 2007, Os Detetives Selvagens foi incluído na lista dos melhores do ano dos jornais The New York Times, Los Angeles Times e Washington Post. Mas foi 2666, lançado no ano seguinte, que levou Bolaño a um lugar de destaque no jovem cânone literário do século 21. Foi "o" livro do ano para as revistas americanas Time, Village Voice e Publishers Weekly, entre outras. O jornal Washington Post chegou a comparar o escritor com os mais ambiciosos e pródigos autores do século passado - o irlandês James Joyce, o francês Marcel Proust, o austríaco Robert Musil, o americano Thomas Pynchon. Isso sem contar as pilhas de sites, blogs e comunidades virtuais dedicados ao autor, que se multiplicam até hoje.
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A morte por insuficiência hepática, em 2003, impediu Bolaño de desfrutar desse sucesso. Então com 50 anos, e antevendo o fim, trabalhou freneticamente nos seus últimos meses nos manuscritos que viriam a ser 2666. Pensando no sustento da família após sua morte, deixou instruções para que os cinco capítulos do romance fossem publicados separadamente, para otimizar os lucros. Ao ler o texto, porém, seu editor discordou. A viúva, Carolina López, também. E 2666 saiu inteiro num volume só - para tristeza dos ladrões de livros.
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Bolaño não conseguiu terminar 2666, mas avançou o suficiente para torná-lo uma das maiores obras inacabadas da literatura universal. "Universal", aqui, não é exagero. Um dos grandes feitos do chileno foi conseguir - como o argentino Jorge Luis Borges - ir além dos limites autorreferentes da chamada literatura latino-americana. E, por isso mesmo, se tornou a voz literária mais contundente surgida na América Latina nos últimos 40 anos, e a influência mais poderosa sobre uma nova geração também ansiosa por se livrar dos vícios e pequenos circuitos sufocantes que assolam a produção do subcontinente.
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No Brasil, o "fenômeno Bolaño" ainda é modesto. Como em muitos países, o autor só foi publicado postumamente, mas sua obra parece marcar a conhecida distância cultural entre nós e a América Hispânica. Não há também registro de passagem do escritor pelo país (sua relação mais próxima com o Brasil é uma anedota provavelmente inventada: ele contou certa vez que defendeu um pênalti do centroavante Vavá quando a Seleção Brasileira se acantonou na vila em que morava, durante a Copa de 1962. Dado que ele era uma criança e Vavá um dos canhões mais potentes do planeta, é de supor que, como goleiro, Bolaño é um ótimo ficcionista). Diante dessa distância - e de tantos superlativos em torno de sua obra no exterior - o leitor brasileiro pode muito bem perguntar: mas afinal, o que é que esse Bolaño tem?
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VIDA VAGABUNDA

Como quase todo bom "universal", Roberto Bolaño teve uma vida marcadamente nômade. Crescido no México, voltou em 1973 ao Chile ainda a tempo de ver o golpe militar de Augusto Pinochet contra o governo socialista de Salvador Allende. Militante de esquerda, quase desapareceu junto com outros milhares após o golpe, mas deu sorte: detido, ficou numa prisão onde dois dos guardas eram amigos de infância. Voltou ao México em 1974, onde se juntou aos infrarealistas, bando de poetas ultravanguardistas em guerra contra o establishment intelectual mexicano, e famosos pelos happenings que aterrorizavam eventos literários.
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Em 1977, o escritor foi parar em Barcelona, e pelos quinze anos seguintes ganhou parcamente a vida de poeta maldito como obrero itinerante (porteiro de camping, lixeiro, lavador de pratos) até se ver casado e com um filho no início dos anos 90. Amigos o convenceram então a arriscar-se na prosa para ver se daí saía algum dinheiro, pois poesia não pagava sequer as fraldas.
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Primeiro vieram os contos, recebidos com prêmios, boas resenhas e um pequeno círculo de leitores cativos. Em 1996, publicou Literatura Nazi en America — outro livro ainda inédito no Brasil. Trata-se de compêndio apócrifo e hilário de uma absurda produção intelectual de extrema-direita da América Latina. Assim como Borges, Bolaño imagina o absurdo como factível, e todas as suas histórias encaixam-se perfeitamente nos buracos perdidos da História onde são enquadrados. O realismo, aliás, é uma das suas vítimas prediletas. Suas ironias e seu temperamento irritaram o establishment literário à direita e à esquerda, especialmente à esquerda (leia frases nesta e na página seguinte). Mas se tornaram irresistíveis para círculos mais jovens e sedentos de novidades.
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Roberto Bolaño vingou toda uma geração que cresceu lendo Pablo Neruda, Octávio Paz, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e suas dúzias de discípulos, mas que não se via dentro de nenhum deles. Uma geração de jovens e mentes cheios de futuro, e que foi massacrada pela história (ou pela economia) e que - como ele - acabou lavando pratos na Europa, nos Estados Unidos e até mais longe. Bolaño deu o pontapé que abriu as portas para a fornada de novos escritores que tentam fazer literatura sem ter de carregar a canga do rótulo "made in Latin America" no pescoço.
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Ao mesmo tempo, a política não abandona sua obra. Ela, porém, serve apenas de estofo para o ofício mais nobre da literatura. Em Os Detetives Selvagens, por exemplo, Bolaño sobrepôs narradores e narrativas para compor um épico de fundo político/poético com ritmo de thriller. Não há nada mágico em Detetives - a marca do autor encontra-se na ironia. Do trocadilho infame ao sarcasmo mais afiado, a principal vítima dos humores bolañescos é a própria América Latina, com seus monumentos a medíocres exuberantes e o olvido de seus gênios fracassados. Os heróis são marginais incorrigíveis e poetas - às vezes até talentosos, mas frequentemente pífios, ridículos e, claro, fracassados.
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A derrota paira sobre cada página. Bolaño não busca motivos para as gerações de fracassos revolucionários, pessoais e coletivos, da América Latina. A ruína dos ideais, das ideologias, do próprio subcontinente como um todo, o eterno ciclo de dominação de caudilhos e canalhas, isso é apenas o ponto de partida. O mundo lá de fora, que se estende muito além da língua, e a literatura como seu espelho, é para onde segue a trilha.
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REALISMO ESPATIFADO
Esse espelho, porém, espatifa-se em 2666. Afinal, como pode a literatura, feita de formas e significados, dar conta de uma realidade que não tem forma nem sentido algum? Para ilustrar a tese, Bolaño desdenhou o paraíso e foi direto ao inferno, sem qualquer auxílio de Virgílio - o poeta que conduz Dante Alighieri às profundezas em A Divina Comédia. Localizada na fronteira do México com os Estados Unidos, a fictícia Santa Teresa, cenário principal do livro, tem os contornos da real Ciudad Juárez, onde uma selvagem narcoguerra, atualmente em curso, foi precedida, em termos de notoriedade midiática, pelas centenas de assassinatos brutais de mulheres, jamais desvendados e que assolam a região desde os anos 90.
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As hipóteses para esse bizarro fenômeno se perdem no emaranhado de interesses de quadrilhas, tanto criminosas como institucionais, que se misturam na região - como uma orgia ininterrupta usando, abusando e descartando um suprimento abundante de mulheres vulneráveis na fronteira sem lei. O cenário é provavelmente uma das razões do grande interesse despertado nos Estados Unidos. Afinal, a literatura norte-americana ainda não soube fazer face à realidade absurda que se passa na fronteira mexicana, coisa que Bolaño conseguiu antever antes mesmo de a guerra estourar abertamente.
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No livro, Santa Teresa é a fronteira extrema do faroeste globalizado para onde os personagens de cada capítulo convergem e mal se cruzam: um pequeno grupo de acadêmicos na trilha de um autor alemão recluso e misterioso; um professor universitário viúvo, exilado da Espanha e desesperançado do México; um repórter negro de Nova York enviado para cobrir uma luta de boxe; um investigador de polícia que mantém um caso amoroso com uma psicóloga enquanto cadáveres de mulheres são desovados no atacado pelos enormes terrenos baldios entre as fábricas maquiladoras que pipocam pela fronteira; e, por fim, um capítulo que nos leva até o front russo da Segunda Guerra Mundial e que promete dar a chave para uma montanha de mistérios, mas só faz espalhar mais uma leva de pistas falsas. Os círculos não se fecham, as histórias são deixadas no ar, mas fica-se com a sensação de que todas elas continuam seguindo seus cursos, e se multiplicando na cabeça como uma desova ininterrupta de cadáveres de mulheres violadas, muito depois da última linha.
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Como leitor, a sede de Bolaño não tinha fronteira: americanos, europeus, russos, todo o panteão da literatura ocidental foi devorado pelo chileno magrelo, que também se alimentava de porções generosas de trash. E os poetas malditos de todos os tempos - simbolistas, metafísicos, beatniks. Bolaño dizia não se ver dentro de nenhuma linhagem literária, pois, mesmo alcançando respeito e fama com prosa, morreu se achando poeta.
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Em 2666, entretanto, ele não mais dialoga com seus predecessores. Seu interesse é mexer com os pilares da literatura, e superar os limites que modernistas e pós-modernos pareciam haver já estendido ao infinito. Bolaño criou um épico sem heróis, descarnado e desumanizado como a modernidade midiatizada, em que a arte em geral (e a literatura em particular) é a única fonte possível de significados, mesmo que falsos ou enganosos - a realidade, afinal, nem sempre corresponde à verdade. Para quem gosta de arriscar uma descida ao Inferno, Bolaño pode ser um guia muito menos confiável que Virgílio, mas com certeza é bem mais divertido.

* Eduardo Simantob é jornalista e produtor de filmes documentários.

O LIVRO
2666, de Roberto Bolaño. Tradução de Eduardo Brandão.
Companhia das Letras, 856 págs.

bravoonline

ROBERTO BOLAÑO

Por Javier Campos *

Fiz esta entrevista com Roberto Bolaño em junho de 2002. Ambos pertencemos à mesma geração poética latino-americana. Inclusive integramos, por volta de 1980, uma antologia no exílio chileno, elaborada pela revista Araucaria (que pode ser encontrada na internet, www.solidaridadconchile.org/Exili.html). Em 2001 e 2002 tivemos um breve contato por e-mail, e ele amavelmente aceitou que lhe fizesse algumas perguntas. Eu as enviei um dia à tarde, na hora de Nova York, e no dia seguinte todas as repostas já estavam no meu correio eletrônico perfeitamente escritas em espanhol, sem nenhum erro ortográfico.
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Esta entrevista foi publicada pela primeira vez pelo diário chileno El mostrador (
www.elmostrador.cl), em agosto de 2002. Até essa data, não existia nenhum trabalho extenso, profundo, nem acadêmico, sobre a obra de Bolaño. Somente trabalhos curtos, resenhas passageiras. Passaram-se cinco anos desde então, e a obra dele, é claro, após sua morte, já foi objeto de muitos estudos sérios.

Na entrevista abaixo não troquei nem um ponto ou vírgula. Está tal como a fiz, como Bolaño a respondeu e como ela foi publicada um ano antes de sua morte. O resto é história.

“São muito poucos os escritores que jogam o tudo ou nada. Quase todos preferem se situar em um meio-termo, contentar uma enteléquia a que chamam de público leitor e assegurar seu salário. Que, ao final das contas, não é mais que um salariozinho” Roberto Bolaño

Pode-se saber alguma coisa sobre a trajetória de Roberto Bolaño através das muitas entrevistas que ele tem concedido (estão disponíveis na internet). É certo, também, que muitos artigos foram escritos a respeito de sua obra, porém são textos em geral curtos e publicados em jornais da América Latina e da Europa. Como anunciou El mostrador na edição de 15 de julho de 2008, está sendo preparado, no Chile, um volume inédito de estudos acadêmicos sobre sua obra – que inclui sua poesia, seus contos e romances – por Patrícia Espinosa, professora na Universidade do Chile e na Universidade Católica. Será – com toda a justiça – o primeiro conjunto de estudos sobre a obra de Bolaño. Alguns acadêmicos e escritores confirmaram por e-mail que até agora não se organizou nenhum painel nem se apresentou nenhuma comunicação sobre a obra de Bolaño nos recentes congressos de literatura latino-americana realizados nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina.

Consultei recentemente – até 2002 – a completíssima bibliografia internacional da Modern Language Association (MLA). Nada, nenhum trabalho acadêmico sobre a obra de Bolaño. Nem sequer ao importante romance Os detetives selvagens (prêmios Herralde de romance, 1998, e Rómulo Gallegos, em 2000) foi dispensada uma atenção crítico-acadêmica mais rigorosa por revistas especializadas em literatura latino-americana. Exceto o bom artigo de Enrique Vila-Matas, em www.letraslibres.com, datado de abril de 1999, sobre Os detetives selvagens, em que se fala da “diversidade textual” de sua narrativa: “É muito provável, portanto, que Bolaño pertença à família literária que reúne Italo Calvino em torno de uma de suas propostas para o próximo milênio: a da multiplicidade”. No entanto, a ausência crítica à obra do chileno não quer dizer que nos cursos de graduação em universidades latino-americanas, norte-americanas ou européias, ou nos colégios, não se estejam lendo e estudando algumas de suas obras. (Será que isso de fato ocorre no Chile, em seus colégios e universidades?)

Roberto Bolaño foi muito agradável e aceitou responder a algumas perguntas por correio eletrônico. Pensei que não teria tempo para isso porque está terminando um romance de mil páginas e sempre respeito a tranqüilidade e a privacidade dos escritores. Porém ele respondeu no mesmo dia, após eu ter enviado as perguntas a seu e-mail particular em Blanes, Espanha.

JC: Os detetives selvagens pode ser lido como o romance do fracasso total de uma aprendizagem política e poética de toda uma geração dos anos 1960 e 1970 que afinal se despedaçaria com o Muro de Berlim e a queda do socialismo. Isso seria uma temática importante de sua produção narrativa a partir da década de 1990?

RB: Eu não acredito que Os detetives selvagens seja o romance do fracasso de uma geração. A educação sentimental, de Flaubert, não é o romance do fracasso de uma geração. Pelo menos sua leitura não pode, de modo algum, esgotar-se aí. Tampouco acredito que Guerra e paz seja o romance do fracasso de uma geração. Ou Conversas na catedral. Sabemos, essa é uma lição do século XIX que somente ficou clara no século XX, que toda geração, pelo simples fato de existir, está fadada ao fracasso. Por isso, pensando bem, carece de importância, como dissera Empédocles e como no íntimo toda pessoa sabe. O importante é outra coisa. William Carlos Williams tem um poema magnífico sobre isso. É um poema longo, coisa pouco usual nele, em que Williams fala de uma mulher, uma trabalhadora, que conta as vicissitudes de sua vida, uma vida mais repleta de desgraças que de alegrias, porém que essa mulher enfrenta com valor. Ao final do poema, Williams diz: “Se você não pode trazer a esta terra algo mais que não seja a sua própria merda, suma daqui”. É claro, diz com outras palavras, acredito. Mas a idéia é essa.

JC: Parece-me que em sua narrativa não se conta uma história principal, mas que se “intercalam” outras histórias ao redor da principal (à maneira das histórias intercaladas de Dom Quixote). Isso pode ser notado em Os detetives selvagens e no Noturno do Chile, por exemplo. Com essa “diversidade narrativa” você quer romper com um modelo linear, fundante da narrativa dos anos 1960 e 1970, ou com a testemunhal pura da década de 1980?

RB: Nunca me interessou isso que você chama de literatura linear. Todo romance, digamos, desde Stendhal, é “um espelho no qual se passeia ao longo de um caminho” e todo caminho, evidentemente, oferece uma diversidade considerável de histórias. Toda história, por sua vez, é sempre uma história no tempo, não fora do tempo, portanto suscetível de mudanças e metamorfoses. E suscetível, também, de várias leituras. Dom Quixote, sem dúvida, continua a ser, pelo menos para os escritores de língua espanhola, o cânone central. E sobre “a diversidade”, só posso dizer que, às vezes, não é diversidade.

JC: Acredito que essas histórias dão outra dimensão a sua narrativa (poética, surreal, alucinante...). Por exemplo, em Noturno do Chile várias histórias se intercalam à história de Sebastián Lacroix: uma é a do pintor guatemalteco e do pintor Jünger; outra é a do sapateiro, súdito do imperador austro-húngaro, que parece nada ter a ver com Lacroix; ou a história das igrejas e dos falcões; de María Canales etc. O que você pode dizer a respeito?

RB: Bem, essas histórias estão ali principalmente em função do personagem principal, o padre Ibacache. Digamos que elas funcionem como os abismos do padre. Agora, veja bem, uma vez ali, essas histórias têm também que funcionar por elas mesmas. Digamos que são exemplos filosóficos, no sentido voltairiano, de uma trajetória moral. E, ainda, uma cortesia do escritor para o leitor, claro.

JC: Seu passado, antes de narrador, foi a poesia e continua sendo. Tenho em minhas mãos a antologia organizada por Soledade Bianchi em 1984 (Entre la lluvia y el arcoiris: jóvenes poetas chilenos [Entre a chuva e o arco-íris: jovens poetas chilenos]), título bem utópico, porém compreensível nos momento em que se escreveram tais poemas. Mesmo ali, em sua poética (ao lado de Bruno Montané), você projeta a crença em uma poesia redentora nesse momento: como o poeta que fala pelos desvalidos, pelos desaparecidos, pelas massas. E agora, quando você escreve poesia, como é esse novo narrador poético chamado Roberto Bolaño?

RB: Eu sempre fui contra a poesia dirigida, a poesia do povo, a poesia da palavra de ordem, a poesia do partido. Não cheguei a essa conclusão depois de algum tempo. Sempre fui contra. Agora, veja bem, acredito que de alguma maneira a beleza, a beleza inútil sempre está – e essa é precisamente sua soberania, sua elegância extrema – ao lado dos despossuídos, dos enfermos, dos perdedores, e que, ao término de um périplo nem sempre mensurável, ela volta para perto deles, volta a essa zona misteriosa e cotidiana em que, para sermos compreendidos (mas unicamente para compreender-nos), chamamos o povo, os cidadãos, os trabalhadores. E também, como não, os vagabundos não trabalhadores.

JC: Os McOndistas, comoFuguet, Paz-Soldán etc., assinalam em seu manifesto – novamente ressuscitado, há pouco, no número da Newsweek International de maio de 2002) – que sua literatura é semelhante ao que se vê nas propostas de filmes mexicanos como E sua mãe também (Alfonso Cuarón, 2000), ou Amores brutos (Alejandro González Iñárritu, 2000). Você concorda com isso? Acredita que sua proposta narrativa é igualmente válida enquanto lhes interessa celebrar, extasiados, a “globalização da cidade latino-americana” – assunto que, objetivamente, uma grande quantidade de pessoas (no momento) o faz e seguirá fazendo?

RB: Não li o manifesto de Fuguet, mas, até onde sei, o próprio Fuguet já lhe deu as costas faz tempo. Não assisti a esses filmes mexicanos que você mencionou. Desde que meu filho nasceu, há doze anos, vou muito pouco ao cinema, quase nunca, e essa situação piorou, só tem se agravado desde o nascimento de minha filha, há um ano e quatro meses. Digamos que os filmes que vejo são os que meu filho aluga. Sobre a globalização da cidade latino-americana, bem, suponho que é uma lorota: as grandes cidades latino-americanas resfolegam como peixes fora d’água. É um tema complexo e seria irresponsável de minha parte falar disso aqui.

JC: Em algumas de suas entrevistas você dá a impressão de desconfiar dos acadêmicos latino-americanos que ensinam literatura latino-americana em universidades dos Estados Unidos. Por quê?

RB: Não, não creio que desconfie. Na realidade, não tenho uma idéia formada sobre esse contingente, que provavelmente deve ser muito variado. A verdade é que eles não possuem uma imagem muito boa. Aqui na Europa costuma-se vê-los como ratos. Ou como parte de uma picaresca latino-americana. Porém me lembro de excelentes professores, como Vazquez-Amaral, por exemplo, uma pessoa muito atenta, muito amável, que traduziu os Cantos, de Pound. Piglia, que também ensina nos Estados Unidos, é um escritor que me interessa. E Carmen Boullosa, a escritora mexicana. Suponho que o mesmo se dê em outros campos do saber humano: por um bom, há cem nefastos. Harold Bloom tem algumas opiniões a respeito, porque é um terreno que lhe toca, digamos, pessoalmente. Para mim, francamente, tanto faz.

JC: Mas você viajaria e viveria nos Estados Unidos como escritor convidado em uma universidade norte-americana? Esses convites fazem parte de uma longa tradição (como sabe, passaram muitíssimos escritores e continuam passando e a lista é longa). Inclusive as inscrições para a famosa oficina internacional de narrativa, da Universidade de Iowa, que ocorre de setembro a dezembro de cada ano, são sempre numerosas, com solicitantes de toda a América Latina. Qual sua opinião sobre isso?

RB: Não está entre meus planos viajar para os Estados Unidos. Menos ainda para um campus. Há uma idade em que se pode ser professor e fazer uma viagem ou viver uma temporada em outro país. Porém eu já tenho mais de quarenta anos, na verdade farei cinqüenta em 2003 e gosto muito de viver na Europa. Quando jovem, talvez tivesse sido interessante viver no Arizona, ou na Califórnia ou em Nova York, que suponho serem lugares cheios de energia. É claro, em nenhum caso viveria em um campus, nem acredito, por outro lado, que me convidassem para passar ali nem sequer um fim de semana. De fato, sinceramente, não acredito que, quando eu era jovem, me concedessem visto para entrar nos Estados Unidos. Ali só concedem vistos aos ricos e aos terroristas. Claro, poderia entrar como espalda mojada,[1] mas é que no México eu já vivia como espalda mojada; assim seria, nos Estados Unidos, duplamente espalda mojada. Ou costas e peito molhados, o que teria sido o cúmulo. Na realidade, ao contrário de muitos escritores chilenos, nunca senti o chamado do Tio Sam. Na América, me interessavam muitíssimo mais o México e a Argentina. De fato, poderia dizer que me interessava muito mais o Peru, e a riquíssima poesia peruana dos anos 1970, do que os Estados Unidos. E agora, não sei, não troco viver junto ao Mediterrâneo por nada.

JC: 2666, o romance de quase mil páginas que está terminando, o que é?

RB: 2666 é uma aposta. Dado o número de páginas, a aposta necessariamente tem que ser forte. Ainda que, na realidade, toda obra literária deva ser enfocada assim: como um trabalho de artesanato, de humildade e de paciência, porém também uma aposta selvagem, o instante em que o escritor joga tudo ou nada. Esse é um dos males, por outro lado, da literatura contemporânea. São muito poucos os escritores que jogam tudo ou nada. Quase todos preferem se situar em um meio-termo, contentar uma enteléquia a que chamam de público leitor e assegurar seu salário. Que, ao final das contas, não é mais que um salariozinho miserável.

* Javier Campos. Poeta, narrador, colunista chileno. Reside nos Estados Unidos, onde é acadêmico da Universidade Jesuíta de Fairfield,Connecticut.

[1] Espalda mojada: termo com que se designam os mexicanos que entram nos Estados Unidos clandestinamente.
www.faculty.fairfield.edu/campos/

Bibliografia

Ficção
Consejos de un discípulo de Morrison a un fanático de Joyce, 1984
La pista de hielo (A Pista de Gelo), 93
Literatura nazi en América
Estrella distante, 96
Llamadas telefónicas, 97 (contos)
Los detectives salvajes (Os Detetives Selvagens), 98
Amuleto (Amuleto), 99
Monsieur Pain, 99
Nocturno de Chile (Noturno do Chile), 2000
Putas asesinas (Putas Assassinas), 2001 (contos)
Amberes, 2002
El gaucho insufrible, 2003 (contos)
2666 (2004)
Last Evenings on Earth, 2006 (contos)
El secreto del mal, 2007 (contos)
El Tercer Reich (O Terceiro Reich), 2010
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Poesia
Los perros románticos: Poemas 1980-1998 (2000)
Tres (2000)
La universidad desconocida (2007) Não-Ficção
El gaucho insufrible (2003)
Entre paréntesis (2004)